segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Submissão e subversão

Lília Dias Marianno[1]

Muito se fala, atualmente, sobre a revisão do papel da mulher cristã na sociedade no século XXI. A pós-modernidade tem mexido muito com as estruturas de uma sociedade que vinha, até 30 anos atrás, se ancorando num modelo androcêntrico de estabelecimento de valores. Os tempos mudaram. Desde a década de 70, com a força do movimento feminista, as mulheres voltaram a conquistar espaços primordiais na sociedade, espaços que lhes foram seqüestrados por cerca de 3000 anos.

Na antiguidade, mesmo no Antigo Oriente, a mulher não foi relegada ao segundo plano o tempo inteiro. Estudos têm mostrado que, quanto mais antigo é o período da história da humanidade, mais proeminente era o papel da mulher. Isto porque a mulher, pela sua capacidade de abrigar a gestação da vida dentro do seu corpo, sempre fora associada, pelas civilizações primitivas com deusas, porque só os deuses é que criam vida. Esta mentalidade ainda estava bastante presente na pré-história de Israel (ou seja, ao período dos patriarcas e do tribalismo).

Não se tinha, nos princípios da história humana, muita noção da proporção da participação do homem na reprodução humana. As funções cúlticas eram exercidas por sacerdotisas em sua grande maioria. A presença masculina veio sendo efetivada em funções sacerdotais a partir do primeiro milênio antes de Cristo.

O espaço da casa sempre foi o ambiente da mulher da antiguidade, ali quem mandava era ela. Sara, Tamar, Rute, Atalia, Jezabel e as mulheres em Ne 5 (que reclamam diante do governador que os homens estão espoliando seus irmãos) são provas bíblicas de que as mulheres são ativas na vida comunitária, inclusive com participação em importantes decisões políticas.

Mas houve um tempo em que as mulheres começaram a ser silenciadas. Isso aconteceu quando a religião israelita se institucionalizou, passando a ser permitida oficialmente somente no templo. O período em que este silenciamento se efetivou foi a partir da reforma feita pelo rei Josias, por volta dos anos 630 a 625 a.E.C. A mulher foi sendo excluída da memória literária embora continuasse ativa na religiosidade popular, pois esta exclusão da mulher do serviço religioso se deu apenas no templo. Nas aldeias e nas casas elas ainda eram consultadas e respeitadas como líderes religiosas. Tanto que os ajudantes do próprio rei Josias, ao receber os rolos que estavam guardados no templo, foram consultar a profetisa Hulda, e não o profeta Jeremias.

Mas depois do exílio a mulher foi silenciada, pois o modelo androcêntrico determinou o padrão da sociedade israelita. Os homens começaram a dominar as questões da religiosidade. O culto oficiado pela mulher se tornou tão inadequado neste novo modelo que, nesta época (quando o cânon do AT começou a ser fechado), a participação da mulher no serviço religioso foi interditada, até mesmo por causa da menstruação. Esse resgate histórico só é possível através do confronto do texto bíblico original com a literatura extra-bíblica da mesma época, realizados por especialistas em Bíblia ao redor do mundo, chamados exegetas.

Os tempos passaram, e no período neotestamentário este androcentrismo tornou-se o padrão da vida em sociedade nas culturas de seu tempo. O cristianismo adotou o modelo androcêntrico como o “modelo correto” de ser cristão. Neste modelo, o homem é o cabeça da família, a mulher tem que estar submetida a ele e os filhos também. Neste modelo tudo depende do homem e os que estão abaixo lhe obedecem. Esta transição não foi fácil. O homem nunca tinha sido reconhecido como cabeça da casa. A mulher mandava na casa. A sociedade mal tinha se acostumado com o homem exercendo o domínio na religião e agora teve que se acostumar com o homem mandando também na casa. Mas isto se deu por alguns fatores.

Primeiro porque o modelo de governo do império greco-romano era androcêntrico. Quando a cristianização progressiva do império ia acontecendo, era completamente constrangedor que as igrejas nas casas continuassem sendo regidas por mulheres. Por isso as epístolas pastorais recomendam tanto que os pastores sejam respeitados nas suas próprias casas (Tm 3). Antes disso as funções dos homens na sociedade eram estritamente relacionadas a guerras e atividades militares.

Então, por 2000 anos, a igreja ignorou, às vezes de forma inocente, mas muito mais vezes de forma institucional a relevância das mulheres em lideranças religiosas e na área da espiritualidade da família.

Estamos no século XXI, e qual o quadro que temos diante de nós? Uma sociedade na qual a mulher recupera os espaços que antes exercia, na qual a mulher, pela sua natural versatilidade e habilidade de dominar simultaneamente muitas atividades, tem ocupado espaços no mercado de trabalho que antes eram apenas masculinos. Muitos homens têm perdido empregos e suas posições de destaques em seus ambientes profissionais porque uma mulher considerada mais competente que ele (ou seria mais barata?) assumiu seu cargo.

Vários destes homens têm passado anos no desemprego, sem conseguir recolocação profissional e isso tem abalado a identidade masculina, na qual sempre se cobrou do homem ser o provedor da família. A mulher contemporânea precisar ir à luta para a “casa não cair”, mas a igreja continua cobrando delas uma submissão que por 2000 tem sido confundida com subserviência. E devemos ser realistas, é muito difícil ser homem hoje em dia. Por mais que as conquistas femininas ainda sejam poucas perto da necessidade mais ampla, não é fácil ver sua posição de poder ser perdida dia após dia na sociedade por causa da força da mulher.

Quando fazemos uma análise de gêneros constatamos que Deus nunca colocou na mulher um espírito passivo, subserviente. A mulher sempre foi, ao longo da história, aquela que reclama, que protesta, que toma a iniciativa contra injustiças, que abre a boca para denunciar, que não fica quieta quando as coisas estão erradas. Deus deu à mulher um espírito irrequieto. As mais quietinhas sabem do que digo, pois, quando vêem algo injusto, errado e não corrigem, ficam passando mal, e se o ambiente obriga a mulher a sempre se omitir nestes momentos, ela começa a somatizar uma série de doenças. Mulheres têm, por mais que se prove o contrário, uma natureza subversiva, conspiradora e ai do mundo se não fossem as conspirações das mulheres.
Diante desta natureza irrequieta que nos foi dada por Deus, e da confusão terminológica causada pela igreja com a expressão submissão, a pergunta que fazemos é? O que é ser uma mulher submissa na contemporaneidade, na qual o homem tem perdido “poder” e “autoridade” e muitas vezes, o próprio homem cristão não está muito interessado em cumprir o papel que a Igreja lhe atribuiu durante todo este tempo?

Talvez uma resposta provocativa esteja na própria etimologia, voltar à origem das palavras e entender o que realmente se exige de nós no texto bíblico.

vós mulheres, sede submissas a vossos próprios maridos, para que também se alguns deles não obedecem apalavra, pelo procedimento de suas mulheres sejam ganhos sem palavra [...] vós maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações” (I Pe 3,1.7).

A palavra submissão neste texto vem do grego upotassomenai que quer dizer estar em sujeição. No português, submissão significa: 1. submeter-se a uma autoridade, lei ou força, obediência, subordinação. 2. disposição para aceitar um estado de dependência, docilidade. 3. Estado de rebaixamento servil, subserviência.

No primeiro sentido, verificamos que, submeter-se à uma autoridade é algo necessário para que a anarquia não seja instalada, à lei por causa do exercício coletivo da civilidade e à força por causa da violência física da qual desejamos ser poupadas. É inteligente ser submissa, neste caso.
No sentido 2 fica mais interessante pois aqui é que se requer da nossa natureza irrequieta e subversiva o jeito todo feminino de convencer, de persuadir de conduzir um grupo na direção da razão sem perder a compostura: a docilidade. E sabemos que, quando nós mulheres mostramos dependência, cooperamos para a preservação da auto-estima daquele que deseja nos proteger. Isto requer de nós também maior capacidade de entender o gênero masculino, as capacidades naturais dos homens, e aprender a não exigir deles coisas que eles não têm condições de fazer.
Por fim, o sentido 3 é o grande causador desta confusão que vemos hoje instalada no meio da igreja, a idéia de que submissão é subserviência, da redução da mulher a um patamar quase servil.

Creio que a partir daqui podemos celebrar a nossa submissão como algo necessário no mundo. Não algo que nos tire a auto-estima, nos fazendo sentir culpadas pela nossa subversão, nossas conspirações. Mas a conspiração feminina deve ser feita com docilidade, cobrando, denunciando, indo à luta, fazendo justiça, mas sem incendiar o país, sem destruir a vida que há na terra.

Por fim, gosto muito da definição de um ancião que ouvi certa vez: Submissão é missão de baixo, de base, do subsolo, do alicerce sobre o qual se apóia toda uma estrutura. O que está no interior é o fundamento das coisas. Às mulheres foi dado o dom de cuidar da base, a missão de prover estrutura para o lar, estrutura emocional, espiritual, logística, administrativa, muitas vezes também a missão de autoridade e financeira quando nos falta o provedor. Não podemos exigir dos homens coisas que foram dadas a nós como dom de Deus, nos aproveitando da confusão etimológica estabelecida pela igreja por todo este tempo, e transferindo para os homens responsabilidades que nos foram dadas naturalmente.

Gosto da frase de Guevara que diz:
há que endurecer sim, sem perder a ternura, jamais!
E isso é coisa que somente mulher consegue fazer.


[1] Comunicação apresentada em Painel no Congresso de Mulheres da Primeira Igreja Batista do Recreio dos Bandeirantes em Março/2007.
Revista Mandrágora No. 12 – Gênero, Religião e masculinidade.
SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento. Exegese numa perspectiva feminista. São Paulo: Paulinas, 1995.
REIMER, Ivoni Richter. Vida de mulheres na sociedade e na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1995.
RESS, Mary Judith. História da Teologia Feminista na América Latina. Em: FRIGÉRIO, Téa (Org.) Ecofeminismo: novas relações, nova terra, novos céus... Série: a Palavra na vida. São Leopoldo: CEBI, 2002.

7 comentários:

Cadu disse...

UAU!Obrigado e Amém.

Ruben Marcelino disse...

Lília,

Gostei muito do seu texto, principalmente do esclarecimento histórico que você expõe ao longo dele. Entretanto, uma coisa me incomoda, não em suas idéias, porém em algo que menciona. Você citou a definição de um ancião que conhece, segundo a qual submissão é missão de base. Com todo respeito, será que definições como essa não podem ser consideradas uma suavização para insistir na manutenção do conceito de submissão feminina na igreja por puro concordismo bíblico e asseguramento do destaque da posição masculina? Penso na existência de um pensamento do tipo: "Tudo bem, as mulheres estão exigindo maiores espaços também na igreja. Mas 'a Bíblia diz' que as mulheres devem ser submissas a nós, homens, ficar caladas na igrejas e ser impedidas de ensinar. Afinal de contas, 'segundo a Bíblia', a mulher é quem foi enganada e caiu em transgressão. Não podemos, portanto, 'ir contra a Bíblia' e, ao mesmo tempo, temos de dar um jeito nelas. Façamos o seguinte: concedamos a elas alguns ministérios (supervisionados pelos nossos, claro), promovendo as suas funções com um discurso, segundo o qual a sua submissão, além de ordenada divinamente, é importante porque é uma 'ajuda' fundamental quando concretizada por meio de apoio ministerial ao trabalho dos obreiros. Assim, elas ficam satisfeitas por estarem atuando na igreja e nós asseguramos a nossa autoridade sem problemas." Será que a situação não é muito mais perversa do que apenas uma questão de auto-estima masculina?

O que você acha?

Beijos!!!

Lisiane disse...

Me arrepiou.Sou acadêmica do curso de Letras da UPF e participo de um projeto de iniciação científica. Fui desafiada a escrever um artigo para o concurso do CNPQ cujo tema é as desigualdades de genero.Minha linha de pesquisa e raciocínio foi estabelecer uma reflexão exatamente a respeito do propósito de Deus ao criar a mulher e buscar a origem do discurso que nos segregou por centenas de anos da vida social.Apoiei-me em textos bíblicos, pois sou cristã neopentecostal e não aceito a idéia de submussão ser sinonimo de escravidão.Ler o teu texto foi algo que me emocionou, não apenas por termos a mesma visão a respeito do papel da mulher, mas , também, porque creio que Deus tem guiado-me para escrever esse artigo.Vou citá-la no meu corpus com honra.É um desejo meu, o qual tenho certeza que vou realizá-lo, após concluir a graduação de Letras estudar Teologia, Que o Senhor permita-me ser tua aluna.
Receba o meu abraço com carinho.
Lisiane De Cesaro

Renata disse...

Olá, gostei demais do seu texto! Trouxe esclarecimento pra mim, pois concordo que a submissão vem sendo apresentada por muitos pastores de maneira equivocada, sendo que este conceito impede muitas mulheres de aceitarem a Jesus ou seguir por não estarem dispostas a praticar "essa submissão pregada" .
Que Deus te abençoe e continue postando mais assuntos como este.
Abraço =)

Westh Ney disse...

Querida Lília

gostei muito do texto. Parabéns.
Linda a sua trajetória e trabalho. bjs
westh

Lucimeire Peres disse...

Gostei dos esclarecimentos, mas eu acredito que a maioria dos homens que exige a submissão das mulheres em forma de subserviência dificilmente muda ao longo de toda a sua vida, e quantas vezes o relacionamento familiar não vira um ciclo vicioso de dependência-codependência, com presença de abuso moral e às vezes físico, sem nenhuma luz no fim do túnel... em alguns casos bem se aplicaria o divórcio, mas ele é descartado porque entra na mesma categoria de questões bíblicas interpretadas de forma equivocada. E assim vai o povo levando miseravelmente sua vida, juntos, angustiantemente infelizes mas obedientes. Alguns crêem na submissão subserviente da mulher como uma questão da natureza, que a mulher nasceu pra isso, tipo selo de autenticidade da mulher de verdade, a mãe deles também era assim, a tia, a vó... Esta exigência pode também estar apenas disfarçada de crença na Bíblia, e ser na verdade puro machismo, misoginia, manipulação característica de dependentes químicos, uma face masoquista ou psicopata, enfim...

Lília Marianno disse...

Enfim... o assunto é amplo demais para ser analisado numa visão reducionista. Tenha apenas certeza que uma mulher divorciada que cria dois filhos homens sozinha, quando escreve um texto destes, tem um lastro de "outro nível" para compartilhar. Grande abraço.